O Escândalo Casa Pia vai-se tornando, à medida que o sol se põe e volta a nascer, cada vez mais escandaloso. Não que tenham aparecido novos arguidos ou um qualquer outro potencial crime ainda mais hediondo, ainda mais macabro. Depois da enchente inicial de crimes e acusações, com meio mundo a tombar perante o jugo cego da justiça, o escândalo agora é outro, mais complexo, mais difícil de se perceber, mais poderoso porque mina as bases de qualquer democracia.
Passo a explicar.
Quanto ao processo propriamente dito, só tenho duas coisas a dizer: se forem inocentes, espero que o Estado os saiba "compensar" pelo tempo, honra e carreira perdidos e descubra quem está por trás de um tal teatro (parece estranho, mas eu reparei 6 meses antes da SIC que todos os envolvidos estavam directa ou indirectamente ligados ao PS...); se forem culpados e a lei não permitir que se lhes enfie tenazes em brasa do esfíncter ao intestino delgado durante dias a fio, então que se descubra a pena cujo efeito seja parecido.
O outro escândalo: media e poder judicial.
A democracia, tal como a conhecemos, baseia-se numa divisão tripartida do poder entre Assembleia da República, Governo e Presidente da República e Tribunais. Cada um deve viver para a obrigação que está na sua base: controlar possíveis excessos dos outros dois poderes e assim garantir um equilíbrio relativo de modo a que as populações que escolheram a democracia pudessem viver em paz (relativa também).
A revolução tecnológica trouxe outro poder à baila: os media. No entanto, alguns dos meios de comunicação esqueceram se uma função implícita da sua criação: a de servir de corrector entre os outros poderes. Mas não! Consegue deitar gasolina para a fogueira ou ainda pior: se fôr preciso, até ateia a fogueira ela mesma!
Estandartes como o código deontológico são motivo de risota e não de orgulho. Valores como credibilidade, seriedade, imparcialidade ou honorabilidade são apenas termos quase camonianos que até ficam bem n'Os Lusíadas, mas não nos jornalistas.
Agora são os advogados de defesa de Carlos Cruz que querem mostrar ao país as contra-provas que têm aos argumentos do juíz Rui Teixeira. Só tenho três coisas a apontar:
1. Que ideia é essa de que um julgamento televisivo é um julgamento limpo porque nada se pode esconder ? Desde quando o conceito de Big Brother passou a ser aceitável que não ao nível do entretenimento ? A meu ver, os media servem para nos informar dos factos. Carlos Cruz fez um depoimento. Rui Teixeira indeferiu o pedido de habeas corpus. Isto são factos, é informação. Agora fazer uma viagem às "memórias" do apresentador, entrevistar-lhe a mulher, a ex-mulher, a filha mais velha, a mais nova, o cão, o padeiro, o mecânico, para ouvirmos coisas como "Vê-se logo pela cara do Sr. Cruz que ele não é pedófilo coisa nenhuma!" Precisamos realmente de opiniões de especialistas como estas ? Os media, com especial ênfase para a TV, têm estadoa esquecer-se da sua principal função: seria promover a justiça imparcial, visível por todos. O que faz é bater com o pé no chão de terra batida, não separando o trigo do joio, e isso faz levantar poeira. Vem tudo ao de cima. Mas será que tudo importa realmente ? Ou, simplesmente, serve para confundir o comum mortal ?
2. As pessoas que garantem que uma TVI lidere audiências com histórias de faca-e-alguidar são alvos fáceis para a psicologia social e da comunicação. O mundo superficial quer sangue, sexo e mais um pouco dos dois. Mas isso é sinal que não os devemos "alimentar" com nada mais ? A informação há muito que deixou de ser o quarto poder, para ser uma espécie de poder zero, que levita sobre todos. Goebbels apercebeu-se do poder da informação, Salazar do da desinformação. Num extremo ou noutro, estes senhores, donos de uma mente deturpada (ou melhor, de uma forma deturpada a meu ver para atingir um fim às custas de valores basilares), souberam ver mais longe que qualquer democrata ou empresário dos media português. Aliás, eu nem sequer percebo porque razão mantemos ainda metade dos programas que se vêm nas TV's portuguesas. Não precisamos de telejornais para nada. Quem os quiser ver que compre TV Cabo e vê SIC Notícias. Entretanto, podemos substituir os ditos cujos pela edição 15 do Big Brother, 7 do Masterplan e 23 da Operação Triunfo, enquanto também podemos disponibilizar ainda mais algum espaço aos programas de dona-de-casa, onde o adeus para a prima na Alemanha ou a indecisão entre cebola ou alho francês para aquele petisco é o momento mais alto do dia/mais profundo da vida. Dá-se merda às pessoas porque elas gostam ? Ou elas comem simplesmente porque não lhes dão mais nada ?
3. As TV's estão a ser usadas como instrumentos judiciais e políticos. Parece-me evidente o recurso de ambas as partes do processo aos media para dar um certo boost ao seu caso quando as coisas não estão a andar da forma que se deseja. Desde a esquizofrenia de Bibi (só assim se consegue explicar 700 posições diferentes ao longo do último ano), à promoção dos arguidos pela troca mediática de advogados de defesa; isto para não falar da prostituição do segredo de justiça, essa inocência que foi notoriamente violada por juízes e advogados e, pior, por 10 milhões de portugueses.
Na minha opinião, a TV deveria voltar à sua posição altiva de poder zero, supervisionante, mas não interventivo. E, sim, deveria também estar com os olhos mais abertos para não ser usada a torto e a direito.
Por fim, as ditaduras surgiram assim. Os Governos não funcionavam, as Oposições risíveis, a Justiça corrupta, ou pavoneante, ou inoperante, ou lenta. E eis que alguém surge a prometer salvação.
Cuidado, portugueses. Cuidado!
Publicado por MrQuentin em fevereiro 9, 2004 02:35 PMNão poderá haver completa liberdade. Porque liberdade total, afecta a liberdade do outro. Compromisso é a palavra chave.
Afixado por: Rui em fevereiro 11, 2004 01:03 PMSendo assim, gostava só aqui de anunciar:
Antes que alguém se antecipe, fica já aqui a minha promessa de Salvação, para isso basta contactar-me através de email. Com uma simbólica contribuição (por transferência bancária, cheque, cartão de crédito ou mesmo dinheiro) eu providencio a Salvação (entregue até 15 dias), por isso Portugueses, não percam mais tempo, desliguem lá a vossa televisãozinha, ponham o Morangos com Açúcar a gravar se quiserem, e venham ter comigo para a vossa Salvação. À distância de apenas alguns cliques...